História por: Professora Viviane Bengezen

Quando a Gabriella veio até minha mesa e me entregou seu poema, intitulado “Amor sem fim”, eu li, reli, fiquei buscando com os olhos partes do poema que me incomodavam… várias inquietações rondavam minha cabeça: “Ela não sabe o que está escrevendo… ou será que sabe?… ela deve ter só copiado versos soltos aleatórios de outros poemas e não faz ideia do sentido geral do que compôs… estou preocupada… e se a irmã dela morreu?… ou… e se ela está com pensamentos de morte?… como lidar com a morte aqui, na frente de 35 alunos de sexto ano?”

Disse para ela:

– Quero falar sobre o seu poema, Gabriella.

Abriu um pequeno sorriso tranquilo e se mostrou solícita, confiante e natural: “Claro,professora! Pode falar”. Então continuei:

– É um poema forte, Gabriella… Nossa… Fiquei me perguntando…

Eu não encontrava as palavras. Fiquei enrolando, meio sem jeito de perguntar, e naquele momento ela entendeu que eu queria mesmo era saber se ela sabia o que tinha escrito. Perguntei:

– Quais textos fonte você usou?

Ela me mostroude onde tinha tirado cada verso (dos poemas do site Kingsmead Eyes Speak) e como tinha rearranjado as palavras, feito trocas, substituições e colagens, até chegar à versão final da escrita. Ela esclareceu:

– Eu quis escrever sobre como seria se minha irmã tivesse morrido, professora. Mas ela não morreu, não, e a gente se ama muito.

Ao ler essa história, de uma experiência que eu e a Gabriella vivemos em 2014, nas aulas de língua inglesa de uma escola pública de Minas Gerais, percebo minha postura arrogante diante de uma aluna, minha dificuldade em lidar com temas evadidos da sala de aula, como a morte, e a necessidade de constantemente viajar para o mundo do outro, como propõe a filósofa argentina Maria Lugones, para imaginar possibilidades de transformação da prática docente.

Kanttum
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